Terça-feira, Abril 18, 2006

Mocinhas e Mocinhos

Depois que se começa a escrever, fica difícil parar, mas também é difícil manter um ritmo ou escrever sempre com segurança sobre um assunto. De todo jeito, resolvi arriscar um tema polêmico, mesmo que eu sempre mude minhas idéias sobre ele. Acho que tem algo nesse assunto que realmente continua a me intrigar, apesar de todas as revisões que fiz.

O assunto é a diferença entre homens e mulheres. Na verdade, acho que deveria dizer a diferença entre mocinhos e mocinhas, porque as coisas começam a mudar por aí, na adolescência. Na infância, milhões de coisas acontecem, a socialização mais forte ocorre, você aprende a diferença entre certo e errado, meninas brincam de casinha, meninos de carrinho, mas não estudo Psicologia para aprofundar as repercussões dessa fase. (Na verdade, a opinião aqui é somente de mulher, independente de graduações).

Acredito que é quando você é mocinha e encontra os mocinhos que as coisas mudam radicalmente. Quando mocinhas, somos treinadas para o mundo da sedução: gastamos horas lendo revistas “Capricho”, “Querida”, aprendemos que devemos comprar roupas bonitas, pra sua mãe não falar que você está desarrumada, aprendemos como é horrível ser rejeitada pelos mocinhos e saímos sempre na expectativa de que “o carinha” chegue em você. Aí, vocês homens vão me dizer que vocês também tinham essa preocupação e que era difícil chegar na mocinha e coisa e tal. OK! A questão não é o momento da sedução, mas o momento de se preparar para ele!

Enquanto a gente rala pra ficar bonita, vocês: colocam uma roupa básica da moda masculina (nem preciso discutir que as opções e preocupações a respeito são muito menores do que as opções femininas), aprendem a beber, fumar e coisas e tal, ficam corajosos porque estão num bando, com hormônios explodindo e o mundo deixando vocês mostrarem isso e partem pra caça. Pronto: ou dá certo e vocês agarram muito ou vocês vão embora chateados. E daí? “Ah, véi, nem liga, ela era mó baranga. Amanhã tem futebol, beleza?”. Ou qualquer outra atividade que os mocinhos fazem pra exercitar seu intelecto, seu corpo ou seu comportamento de grupo: jogos, livros, vídeo game!

Versão feminina: a mocinha não foi cantada pelo carinha que queria: “Nossa, mas eu coloquei meu sutiã mais poderoso! Amanhã vou comprar aquele brilho novo com cheirinho de morango e uma calça jeans baixa!”.
A mocinha ficou com o cara: “Amanhã vou comprar aquele brilho novo com cheirinho de morango e uma calça jeans baixa! Vale a pena investir em mim!”.

Nós, mocinhas e mulheres somos SEMPRE vistas, antes de tudo, pelo:
a) rostinho bonito;
b) peitos levantados e grandes
c) bunda boa.
(Desculpem se errei a ordem). Depois vem o currículo.

As revistas femininas mostram figuras de mulheres com os requisitos acima, as revistas masculinas mostram figuras de mulheres com os requisitos acima, os outdoors para vender liquidificador mostram figuras de mulheres com os requisitos acima, as propagandas de desodorante mostram figuras de mulheres com os requisitos acima e até as propagandas políticas mostram figuras de mulheres com os requisitos acima!

Vocês homens, admiradores de imagens femininas, já pararam pra pensar se trocássemos as mulheres bonitas pelos homens bonitos? Que overdose de homens vocês teriam de uma hora pra outra no mundo visual de vocês?

Dá para perceber que o apelo pela boa imagem feminina é muito rígido?

Agora, qual o resultado disso tudo?

Na verdade, eu escrevi uns três parágrafos sobre resultados, resolvi cortar, porque aí eu manifestava muito ódio, que nem sempre se justificava e ia acabar rendendo comentários somente sobre meu exagero. Queria fazer disso aqui um texto para reflexão sobre o que apontei como causa de diferenças entre homens e mulheres, sem querer render que diferenças são essas, mas não resisti e voltei atrás. Penso que:

O resultado são mulheres divididas entre trabalho, família, a frustração de descobrir que não há príncipe encantado e manutenção da beleza pra também não perder o cara que você tem em casa. E numa dosagem que seu chefe não te confunda com as putas do fim de semana dele, nem faça piadinhas porque hoje você está muito “mal cuidada”.
Os homens: trabalham, escolhem a mulher do momento, casam, brincam com os filhos e, claro, continuam cultivando uma vida à parte: futebol, baralho, cigarro, cerveja e, por que não, mulheres!

Por fim, para que esse texto ganhe um pouco mais de credibilidade, resolvi invocar um nome da Academia e utilizar um trabalho científico para auxiliar minhas idéias.

Alba Zaluar, em seus vários estudos sobre favelas cariocas, descobriu que o tráfico, além de outros motivos, é sustentado pelo status que dá ao homem. Ela nomeou tal fator de “ethos guerreiro”, recorrendo à expressão de Norbert Elias. Ou seja, os homens do tráfico ganham dinheiro, poder e mulheres! As tchutchucas enfrentam uma concorrência ferrenha para serem A mulher do traficante! Sim, como disse um jovem de 16 anos que entrevistei outro dia “mulher hoje em dia gosta de perigo!”. Mulher é tchutchuca, é alvo de sedução e elas vivem para serem cobiçadas.

O que acontece no tráfico, pra mim, é recorte intensificado do que acontece aqui fora, com a classe média. A preparação da mocinha é para ser alvo de sedução, antes mesmo de ser preparada para mercado de trabalho e tudo mais. Quando se torna mulher, ela é independente disso? Como? O mundo grita por todos os outdoors que ela deve ter:
a) rostinho bonito;
b) peitos levantados e grandes
c) bunda boa.
(Desculpem se errei a ordem). Depois o bom currículo.

Será que estou exagerando ou tem mais alguém por aí que acredita que o mundo ainda é majoritariamente tomado por regras masculinas e que nós, mulheres, seguimos muitas delas sem nos darmos conta disso?

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Sobre os Controles do Mundo

Acabei de ler Cartas na Rua, do Bucowski. Ele conta do tempo de serviço nos Correios dos EUA e das regras absurdas a que estava submetido.

Também na aula de Economia do Setor Público chegamos à conclusão de que o mundo moderno exige cada vez mais do Estado um tipo de ação pautada pela manutenção da ordem e pelo aumento de regras que controlem as diversas formas de vida (econômica) que inventamos. Para cada novidade, um carimbo... Weber tinha previsto essa burocratização crescente.

Nietzsche e Freud relataram o sofrimento que as regras nos causam. Não li muito Freud (sabe-se dele por osmose), mas em Genealogia da Moral, Nietzsche estuda como o cristianismo e sua idéia de ascese trouxeram ao mundo a interiorização da culpa, à medida que introjetava em seus fiéis comportamentos de solidariedade e respeito ao outro. Mandamentos severos para se cumprir à risca, que acabaram levando ao auto-flagelamento, expressos numa culpa e num remorso constantes. O mau não exteriorizado, volta-se para o indivíduo.

E aí lembrei daquela história toda de controlar os funcionários públicos, impondo-lhes mais e mais regras. Será que não dá para pensar diferente?

Melhor que regras impostas, é entender a importância de certas atitudes. Se cada funcionário acreditasse que algumas mudanças de sua parte poderiam ajudar a quebrar a sensação que temos de inutilidade diante da corrupção que vivenciamos, não se precisaria obrigá-los a nada. Eu acredito que muitos sairiam da inérica se enxergassem um meio de agirem pela mudança. A política tem sido feita muito ao redor de eleições e representação indireta, quando novas formas de ação direta são possíveis (Mangabeira Unger, Boaventura e Avritzer que gostam dessa “loucura” de inovação!).

Talvez os funcionários públicos não ajam porque:
- não perceberam sua importância política, no sentido de informar à população o que acontece dentro da máquina pública;
- não conseguiram imaginar como podem passar essas informações.

Esse é só mais um argumento para o que eu disse no outro texto, sobre transparência: participação política com o menor custo psíquico possível. Chega dessa coisa de inventar mais e mais regras... isso somente reforça o que dizia Polanyi, de que em alguns instantes, não há como escapar da necesidade de solidariedade e confiança nos outros, que são dois pontos fragilizados nesse mundo moderno de competição e mercado selvagem.