Domingo, Janeiro 28, 2007

Filmes recentes

Assisti a um bocado de filmes esses dias que me fizeram pensar tanto e instantaneamente ter uma vontade de mudar, mas não vou escrever muito sobre eles, porque não consigo. Espero que possam assistir também e tirar suas próprias impressões:

Volver, do Almodóvar.

Melhor filme que já vi dele, com certeza! Lindo, triste e divertido, como é Almodóvar. Senti orgulho de ser mulher e de poder lembrar de tantas outras que conheço e admiro, pela força que têm e pela capacidade de fazer loucuras súbitas pelo que acreditam. (Muita saudade da Luciana, minha amiga...). Agir por amor, simplesmente. Não é outro confronto entre sexos que proponho, mas acho que são vcs, homens, que têm que tentar dizer se há algo que torna nós, mulheres, tão especiais assim. Do lado de cá, a melhor explicação que encontro é uma que ouvi num filme (Os garotos da minha vida): um pai explicava a seu filho que "uma mulher pode estar brava o quanto for com vc, mas diga a ela que vc precisa de ajuda e ela se comove".

Zuzuangel

Pena que o filme do Lamarca não tenha tido a mesma divulgação deste, mas tudo bem, vale a pena. Outro filme sobre ditadura no Brasil e isso me dava preguiça. Só que este é contando a história real de uma mãe que perde seu filho e muda completamente sua vida pra tentar buscar justiça. No final, vi que certos temas nunca são demais e a ditadura brasileira é um deles.
Minha mãe me disse no final que fica feliz por eu ter nascido em 1983, pois do contrário eu estaria envolvida nos movimentos estudantis contra ditadura. Acho que não, sou muito medrosa.
De todo jeito, amanhã faço 24 anos e fico pensando qual a "batalha" que minha época me reservou. Motivos não faltam, mas como a democracia cria ares mais suaves para o país, a gente vai levando, sem pensar muito o que poderia fazer. Quando se vive no extremismo, cada atitude é pensada e analisada sob algum viés político. Isso é chato e torturante, porém o oposto - viver com botão de fodas ligado - é uma opção...triste. Certas ingenuidades já não são mais permitidas, como acender um cigarro de maconha e não pensar no que há por trás disso. Acho que a batalha de hoje se vive assim, com pequenas mudanças.

Mais estranho que ficção

Nenhuma vida deve ser mais entediante que a do persongaem central e, no entanto, em dado momento ele consegue mudar isso e, melhor, acaba afetando a vida de outros também. Acho que é por isso que gosto de Sociologia, pra poder pensar nessa relação de um no todo, indivíduo e sociedade, rede... Faz tudo ficar parecer mais importante!

Terça-feira, Janeiro 16, 2007

Visita ao CEIP

Uma bela manhã de sol em dezembro minha chefe me diz: "Carolzinha, estou indo ao CEIP, vamos?".

E assim entrei num Centro de Internação Provisória para jovens infratores sem saber bem por quê e pra quê, mas tb não precisava. Foi uma chance de ver certas coisas que todo mundo devia ver, afinal, é o Estado que legitimamos que sentencia e pune daquela forma.

A visita foi em época de Natal, quando as mães estavam em mesas com seus filhos, na quadra que há lá e com direito a uma ficha para pratinho de salgado e refrigerante Del Rey. Não vejam ironia minha nisso, é só uma descrição. Porque o que me incomodou nem foi essa visão.

Minha chefe e eu chegamos atrasadas e já discursava pessoal da Igreja Universal e putz! eles têm a manha! Acredita que a mulher disse pra eles que quem ouvisse a rádio deles, tal horário, eles mandariam abraço para jovens do CEIP X?? Espertos! Além dos serviços de assistência jurídica que é oferecido a todos que pegarem senha!

Aí depois veio apresentação que alguns meninos de lá fizeram junto a outro jovem que trabalha lá e sabe dançar. Que mico! Parecia aquelas apresentações de escolinha infantil, mal ensaiada! Os meninos não sabiam os passos, olhavam toda hora para o instrutor e não encaravam a platéia. Nessa hora pensei que aqueles ali, sujeitos a tal mico, estavam mesmo domados! Como alguém se submete a isso?

Logo em seguida, veio a apresentação de uma oficina de dança, do FV-Taquaril. Engraçado que alguns conheciam os meninos de lá, mas na apresentação, os jovens (livres) estavam à vontade, bem ensaiados e nem se intimidaram de apresentar coreografia com moças seduzindo rapazes, ao estilo hip-hop americano. Essa foi pra dar mais gostinho de "quero sair daqui" para aqueles jovens acautelados.

E por falar em acautelados, tivemos depois da fala emocinonada da minha chefe, uma visita aos outros ambientes do CEIP. É um lugar novo, limpo, mas estranhamente abafado. Circula muito ar porque tem a tal quadra e uma outra quadro de futebol ao lado, mas é tudo de cimento, sem uma graminha, com muitas grades, poucos móveis e um espelho com berada quebrada...

Tem uma sala de convívio, tipo de escola, mas essa sem carteiras (a sala de aula era ao lado e cheia de cartazes sobre sexo seguro e explicações sobre aparelho reprodutor). Essa sala de convívio foi a que me horrorizou mais: era cheia de bichinhos pregados na parede, coloridinhos, como salsa de escolinha infantil, de novo! Que pedagogia é essa? É serio: algum pedagogo ou psicólogo ou sei lá o que me explica isso?

Porque eu achei uma inocência tratar aqueles meninos de modo tão infantil! E no fim, apesar de todas as multi-causas que levam um jovem para o CEIP, há um crime que o obriga a cumprir tal medida. Foi isso que um deles me lembrou: um dos jovens que pagou mico dançando, no final, encontrou com a coordenadora do lugar - uma jovem loira e bonita - e deu "aquele" cumprimento a ela! Hahaha...ai, ai! Acho que quem decorou a sala de aula entende mais esses meninos do que quem decorou a outra salinha coloridinha!

Que efeito esse lugar traz a esses jovens? Ao menos um desespero deve haver pra quem sai do alto de um morro, com vista e mil amigos-homens, pra cair naquele caixote com cara de casinha de menina.

Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

Feliz 2007

Eu estava no RJ agora no fim de ano e confesso que senti medo do reveillón por lá depois de todas as notícias que vi na TV (porque só mesmo pela TV fiquei sabendo o que se passava por lá).

Terminei de ler Falcões e lá eles tentam mostrar que o tráfico carioca está em todos os lugares do país, mas nunca senti tanto medo aqui em BH. Imagina: incendiar um ônibus de viagem na linha vermelha! Poxa, eu passei por lá, podia ter sido o meu, ou de algum conhecido! Eu não sei, ainda é muito louco imaginar isso tudo, ou os relatos do livro. É difícil acreditar que isso seja Brasil, 2007, pós direitos humanos e mil Constituições republicanas... sei lá. E aquelas regras todas que a gente aprendeu?

A única coisa que eu ficava imaginando era a cara de quem fez isso: na hora em que taca fogo num monte de gente! (Putz, to escutando This fire do Franz Ferdinand...seria mais fácil exorcizar o ódio com música). Essa atitude é tão estranha que fico querendo enxergar cara de gente-como-eu em quem faz isso, sabe? Ou saber qual a distância que essa pessoa está de um animal. Contardo Calligaris escreveu algo parecido hoje na Folha, dizendo que a busca por turismo sexual em países do 3º Mundo está na distância que se vê nestas pessoas, transformadas em animal por sua degradação social, o que torna mais fácil transar com elas em troca de "um biscoito", como ele diz.

É, não dá pra simplesmente dizer que quem faz terrorismo no RJ é animal, seria fugir muito fácil do assunto. Daí lembro do filme que (finalmente) vi ontem: Scarface. Lembra quando Tony Montana faz discurso no restaurante dizendo que ele era o mau que as pessoas poderiam apontar e punir, porque ele não sabia se esconder como todos os outros ali, afinal somos todos como ele?

Pois é, somos todos culpados. Criamos e reproduzimos idéia de consumo em massa, somos pessoas em massa, mais individualizados e mais iguais do que nunca. Desse jeito faz sentido matar em massa, porque se um morrer "nasce outro igual, pior ou melhor", como disse um pirralho Falcão.

Somos descartáveis como latinha de refrigerante, que esgotam a vida com a mesma velocidade que se bebe uma. Homens bomba com uma AK.

Fiquei muito chateada com esse fim de ano no RJ, com esse contexto todo. E lembrei que ainda tem a pergunta que o psicanalista deixou ao programa FV: e depois que fiquei vivo? Faço o quê? Nesse sentido, sinto que tanto faz ser jovem rico ou pobre, favelado ou não: que sentido a gente se dá pra além do agora? O que me prende nesse mundo e às pessoas com quem convivo?

A esperança que restou foi na virada, quando vi que os cariocas (e espero que outros tb já pensem assim) imploravam por paz. Parecia um grito só, sabe? Uma vontade real de viver e ver outros viverem. Nessa hora, senti que um grito em massa valia a pena.

Assim, espero que 2007 seja um ano de paz, pra gente poder viver. E de amor, pra gente viver bem.