Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

Constatações simples



Eu estava lendo um texto do Gianetti para a prova de amanhã e fala da teoria econômica chama "egoísmo ético", que supõe que se todos agirem seguindo seu próprio interesse, todos se sairão bem. A diferença dessa teoria para a de Adam Smith é que este assume tal comportamento como o desejado pelas pessoas, mas não como o desejável. Porém, um tal de Manderlay (lembra do filme?) escreveu uma Fábula das Abelhas para dizer que é este sim o comportamento desejável, pois caso todas as abelhas fossem virtuosas, não haveria mais incentivo para produzir e consumir crescentemente e assim, a colméia ficaria oca.

Gianetti apresenta essas idéias para contrapô-las dizendo que na verdade precisa-se de uma moldura moral até mesmo para garantir um bom funciomento do mercado/colméia. Por exemplo: confiança, regras de combate à usurpação e garantia da competitividade, além do capital humando predito posteriormente por Marshall dão mais resultado que uma desenfreada busca pelo auto-interesses. O próprio Manderlay tende a ir contra suas idéias quando prega punição para mau comportamento (antes preconizado em suas abelhas canalhas assumidas - com outro nome que não lembro agora).
Mais do que boas regras, porém, necessita-se de bons homens, conclui Gianetti.

E dái me pareceu óbvio, mas ao mesmo tempo, não é o que a Ciência Política tem assumido, creio eu.

Logo no 1º período dessa matéria estudamos Maquiavel e sua descoberta da política, por parar de se basear em homens virtuosos, como faziam os gregos. Não é um retrocesso à Grécia que falo aqui. Não são os homens virtuosos, assim como também não são completos canalhas. Mas enfim, tudo é uma questão de aprendizagem, socialização, como também estudamos no 1º período de Sociologia.

Em Antropologia e Sociologia Brasileira, estudamos o povo brasileiro e todas as grandes versões escritas sobre ele, o que nos leva a entender (ou pelo menos tentar pensar) por quê nós brasileiros somos tão avacalhados: descendentes de ladrões e outros criminosos enviados à nova terra, malandros que sempre evocam o "sabe com quem está falando" ou que tentam dar um jeitinho aqui e acolá... Explica, mas não justifica.

Enquanto isso, a modernosa Ciência Política parece ter se resignado à transformação e ter decidido tapar buraco porque suas propostas passam sempre por "reformas" ou um novo "desenho institucional", como se apelar a tais palavras e maquear a forma, transformasse o conteúdo. Enfim, a Ciência Política desistiu de educar e tentar socializar moralmente para simplesmente justificar erros e trapaças como "normal" e "esperado", "devíamos ter sido mais cautelosos em nossas regras"... Como se fosse possível sempre criar outra regra pra consertar um pedaço, enquanto ninguém se preocupa em ir à fonte do problema. (Aliás, a discussão em torno da redução da maioridade penal peca por isso também: querem aumentar as leis ao invés de garantir execução das já previstas. Principalmente das medidas preventivas...)

Mas como socializar moralmente? Isso é mais complicado e eu podia terminar só com a mesma resposta de sempre: escola. Mas esse é só um âmbito e não tem que dar conta de tudo. Outro âmbito está nas próprias relações humanas, que começam com a família, passam pelos amigos, namorados, etc. Nós mesmos nos controlamos, muito com base em tentativa e erro - mas essas são as marcas mais fortes. Podia falar muito, deixa pra outro dia, mas concluo que experiências em grupos diversos, viver a diferença pode ser um bom jeito de aguçar nossa moral.

PS: sim, eu tenho implicância com o chavão "instituições bem-desenhadas" da C.P.! Por mais que eu não negue que elas tenham um efeito sobre as pessoas, são as pessoas que mantêm ou não esse "bom desenho"!

Domingo, Fevereiro 11, 2007

Esbarrão


Eu queria ver um filme, mas ia terminar tarde, então fui comprar ingresso pra peça de teatro, mas já tinha fechado... Aí fui dar volta na Leitura pra não perder viagem e eis que esbarro com o seguinte trecho:

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Achei lindo e não podia ser diferente. É parte de Tabacaria, do Álvaro de Campos. Já amava o poema pela primeira estrofe

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Agora reli o poema inteiro e vi o quanto é bonito, mas melhor mesmo é assim, dar uma esbarrada, numa noite de terça-feira com uma frase dessas.
O acaso torna as coisas encantadas.
Aqui fica a chance de esbarrão com Fernando Pessoa.