Matar e cocar, eh soh comecar
Outro dia tive a oportunidade de capinar um lote pro meu pai. Coisa pequena, que me causou dor nas costas, mas que tinha umas plantas já grandes, com mato alto.
Achei muito estranho quando eu via aquela planta muito forte, crescida, dando frutos e tinha que mata-la. Segundo minha irmã, que entende do tema, aquilo era só mato, atrapalhando as outras árvores frutíferas, ou seja, aquelas que realmente nos interessavam.
Mas a sensação de ir com a enxada podar até a raiz, com força, uma linda planta julgada daninha me fez pensar como há uma seleção do que deve morrer e como essa justificativa faz com que, então, eliminemos qq culpa e usemos toda a força pra executar a ação.
Parece bizarro comparar plantas com pessoas, mas capinar me fez pensar em homicídios.
As mesmas pessoas que vivem na área rural e que costumam matar para viver, provavelmente matavam - e ainda matam - a pessoas que são "daninhas" pro seu meio. São casos vários de justiça pelas próprias mãos que ainda na mentalidade de muitos é justificada por ameaçar o equilíbrio.
Com a sociedade moderna, estabeleceu-se que não mais se mata, uma vez que a forma de punição adotada é a prisão, na maioria das vezes. É mesmo um processo de mudança, de pacificação que deve ser internalizado, já que a vida é considerada bem maior que deve ser protegida pelo Estado.
Pois se é difícil internalizar esse novo comportamento, parece haver outros processos na modernidade que vão de encontro com esse processo de pacificação.
A produção em massa faz com que não somente plantas e animais sejam mortos em excesso para saciar nossa fome e nossa gula, mas também as pessoas são mortas futilmente, por exageros de nosso comportamento.
Desde que se passou a produzir em massa, também se destrói coisas (e pessoas) em massa. Além disso, se antes quem consumia é que matava, hoje quem mata nem sempre sabe o porquê do que faz. Simplesmente cumpre uma função banalizada pois deixou de ser refletida.
Matamos plantas, animais e pessoas não por necessidade, mas para saciar prazeres. Esta é a lei maior que parece fundamentar essa atitude. Fica fácil chegar a esse extremo quando a ação se torna irrefletida e rotineira.
Achei muito estranho quando eu via aquela planta muito forte, crescida, dando frutos e tinha que mata-la. Segundo minha irmã, que entende do tema, aquilo era só mato, atrapalhando as outras árvores frutíferas, ou seja, aquelas que realmente nos interessavam.
Mas a sensação de ir com a enxada podar até a raiz, com força, uma linda planta julgada daninha me fez pensar como há uma seleção do que deve morrer e como essa justificativa faz com que, então, eliminemos qq culpa e usemos toda a força pra executar a ação.
Parece bizarro comparar plantas com pessoas, mas capinar me fez pensar em homicídios.
As mesmas pessoas que vivem na área rural e que costumam matar para viver, provavelmente matavam - e ainda matam - a pessoas que são "daninhas" pro seu meio. São casos vários de justiça pelas próprias mãos que ainda na mentalidade de muitos é justificada por ameaçar o equilíbrio.
Com a sociedade moderna, estabeleceu-se que não mais se mata, uma vez que a forma de punição adotada é a prisão, na maioria das vezes. É mesmo um processo de mudança, de pacificação que deve ser internalizado, já que a vida é considerada bem maior que deve ser protegida pelo Estado.
Pois se é difícil internalizar esse novo comportamento, parece haver outros processos na modernidade que vão de encontro com esse processo de pacificação.
A produção em massa faz com que não somente plantas e animais sejam mortos em excesso para saciar nossa fome e nossa gula, mas também as pessoas são mortas futilmente, por exageros de nosso comportamento.
Desde que se passou a produzir em massa, também se destrói coisas (e pessoas) em massa. Além disso, se antes quem consumia é que matava, hoje quem mata nem sempre sabe o porquê do que faz. Simplesmente cumpre uma função banalizada pois deixou de ser refletida.
Matamos plantas, animais e pessoas não por necessidade, mas para saciar prazeres. Esta é a lei maior que parece fundamentar essa atitude. Fica fácil chegar a esse extremo quando a ação se torna irrefletida e rotineira.

4 Comentários:
Existe um nome que talvez seja mais interessante, pela navalha de Occam, para explicar o que você chamou de processo de pacificação: é o fenômeno da expansão do círculo moral do indivíduo.
Assumindo como certos Darwin e Dawkins (e hoje em dia, com tamanha evidência empírica a favor deles, é difícil negá-los, mesmo sendo religioso), as espécies não matam e consomem devido a causas próximos, tais como necessidades fisiológicas. A trágica realidade da natureza impele as espécies a atuarem em nome da causação última, que é reproduzir os genes. Você não come porque está com fome - você fica com fome para não morrer e assim parar de reproduzir genes. Esta diferença de ganhos de curto e logo prazo foram aprendidas e incorporadas nas nossas culturas.
A explicação de Pinker sobre como se expande o círculo moral é incrível. Ela é longa apenas para tentar apaziguar a resistências daqueles que têm uma visão utópica do mundo (tentativa inútil, na minha opinião, já que eles não vão aceitar esta explicação, por mais sensata que seja). Aqueles que lerem com atenção e respeito vão entender bem:
"As pessoas expandiram constantemente a linha pontilhada mental que abrange as entidades consideradas dignas de consideração moral. O círculo foi sendo ampliado, da família e da aldeia para o clã, a tribo, o país, a raça e, mais recentemente (como na Declaração Universal dos Direitos Humanos), para toda a humanidade. Foi se afrouxando, da realeza, aristocracia e senhores de terra até abranger todos os homens. Cresceu, passando da inclusão apenas de homens à inclusão de mulheres, crianças e recém-nascidos. Avançou lentamente até abranger criminosos, prisioneiros de guerra, civis inimigos, os moribundos e os mentalmente deficientes. E as possibilidades do progresso moral não terminaram. Atualmente, há quem deseje ampliar o círculo para incluir os macacos antropóides , as criaturas de sangue quente e os animais com sistema nervoso central. Alguns querem incluir zigotos, blastócitos, fetos e as pessoas com morte cerebral. Outros ainda pretendem abranger espécies, ecossistemas ou todo o planeta. Essa mudança arrebatadora nas sensibilidades, a força propulsora na história moral de nossa espécie [...] poderia ter surgido de um mecanismo moral contendo um único botão ou cursor que ajustasse o tamanho do círculo abrangendo as entidades cujos interesses tratamos como comparáveis aos nossos. A expansão do círculo moral não tem que ser movida por algum impulso misterioso de bondade. As sociedades humanas, como os seres vivos, tornaram-se mais complexas e cooperativas com o passar do tempo, não por possuir uma mentalidade cívica inerente, mas porque se beneficiaram da cooperação mútua , da divisão do trabalho e desenvolveram modos de abafar conflitos entre os agentes que compõem o sistema. Dito de outro modo, isso ocorre porque os humanos beneficiam-se quando se agrupam e se especializam na busca de seus interesses comuns, contanto que resolvam os problemas da troca de informações, da falta de reciprocidade nos vínculos sociais relacionais e da punição dos trapaceiros. Jogos de soma não-zero (contrário de um jogo de soma zero, no qual o ganho de um jogador implica perda para o outro) surgem não somente da capacidade das pessoas de ajudar umas às outras mas de sua capacidade de abster-se de prejudicar uma às outras. Em muitas disputas, ambos os lados saem ganhando ao dividir o que foi poupado graças a não ter lutado. Isso fornece um incentivo para desenvolver mecanismos de resolução de conflitos, como o direito, medidas para salvar as aparências , restituição e retribuição reguladas e códigos legais. Franz de Waal afirmou que rudimentos de resolução de conflitos podem ser encontrados em muitas espécies primatas. As formas humanas são encontradas em todas as culturas, tão universais quanto os conflitos de interesses que elas se destinam a dissipar (pessoas de todas as culturas distinguem o certo do errado, têm um senso do que é justo, ajudam umas às outras, impõem direitos e obrigações, acreditam que os agravos têm de ser compensados e condenam o estupro, o assassinato e certos tipos de violência). Assim que há razões para crer que um senso moral evoluiu em nossa espécie em vez de precisar ser deduzida da estaca zero por cada um de nós depois de sairmos da lama. A evolução nos dotou de um senso moral, cuja esfera de aplicação nós expandimos no decorrer da história por meio da razão (entendendo a permutabilidade lógica entre nossos interesses e os das outras pessoas), do conhecimento (aprendendo as vantagens da cooperação no longo prazo ) e da compreensão ( passando por experiências que nos permitem sentir a dor de outras pessoas). Por conseguinte, parece razoável supor que o progresso moral e social pode ter avançado gradualmente, não a despeito de uma natureza humana fixa, mas graças a ela."(Pinker, 2002).
O que eu quero acrescentar é que cada indivíduo tem o seu próprio círculo moral. Enquanto uns só pensam em si mesmo como dignos de receber regras morais ("só eu tenho direitos"), outros podem estender este direito para qualquer ser vivo (como filosofias budistas, vegans entre outros). Um meio termo comum às pessoas é expandir seu círuclo moral com prioridades: o próprio indivíduo, seus filhos, seus pais e irmãos, o restante de sua família, seus amigos, sua cidade, seu país, seu time de futebol, sua raça, seu sexo... não necessariamente nesta ordem de importância.
O que eu acho legal no seu texto é que ele procura algo como uma justificativa para o indivíduo expanda o círculo moral dele. A causa última está nas teorias naturais de Darwin, Dawkins e Pinker (aí sim, nesta ordem), mas a causa próxima cada um tem a sua. Você não mata vira-latas doentes mas mata baratas? POr quê? Só porque uns são "bonitinhos" e outros "asquerosos"? Você não mata pessoas? Por que vai preso ou porque isto é errado? Acho que cada pessoa segue uma filosofia própria, que faz ela ter todas estas respostas de antemão. O problema é saber sintetizar esta filosofia. Homo sapiens sapiens implica não só pensar, mas também saber que pensa.
Mais de meia noite, quem está sonhando em vez de pensando sou eu! :)
As teorias evolucionistas dão a entender que se mata porque é necessário - não por uma causa de curto, mas de longo prazo, como vc diz. Talvez isso ainda valha, mas ficou menos óbvio perceber que causas últimas seriam essas que justificam tantas mortes.
Ou talvez, e aí é uma pergunta, nesse processo de evolução haja retrocesso e aprenderemos que as causas que têm fundamentado tantos extermínios pode mesmo é impedir a reprodução dos genes.
Afinal, analisando os homicídios entre jovens, o que se percebe é que a vida - dos que eles matam e deles próprios - lhes parece de muito baixo valor.
Este é todo ponto, uma pessoa que dá pouco valor a vida alheia, de acordo com a teoria da expansão do círculo moral, está ainda desprezando esta expansão. Seja o desprezo intencional (ou crueldade) ou fatídico (o ambiente impõe ou o ambiente sequer permite o acesso).
A causa última é a replicação genética. Tenha sido o assassinato por questão de sobrevivência, briga, status, interesse econômico, prazer, paixão... infelizmente, para a natureza humana matar é uma das melhores formas de se eliminar concorrentes, osbutáculos ou para se mostrar poder. O indivíduo não age pensando necessariamente na causa última. Isto raramente acontece. A justificativa para tantas mortes é, como vc disse, a vida ter baixo valor [moral]. Na medida em que este valor cresce, os assassinatos tendem a diminuir. Tanto que em países desenvolvidos existe um medo de que o xenofobismo faça com que novamente o círculo moral se contraia, ou seja, os estrangeiros passam a valer menos. Isto é um risco inerente do ser humano, que deve ser combatido pelas sociedades.
Evolução não tem um objetivo em si. Ela simplesmente acontece. Tratar evolução como algo que sempre "melhora" é um conceito relativo: mesmo que seja verdade, a evolução então "melhoraria" o que? Afinal, a natureza não tem contas a prestar a ninguém. Pelo menos não aos homens.
Bacana sua reflexão carol,
achei interessante quando vc escreveu da eliminação das ervas daninhas, e de como muitas pessoas fazem justiça com as próprias mãos, me lembrou muito dos linchamentos que é prática muito comum no brasil ainda, e principalmente no rio..
E tem aquele sociologo o Jessé Souza que tem o conceito de sub-cidadão que me parece bem interessante pra entender isso...
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Início