Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Matar e cocar, eh soh comecar

Outro dia tive a oportunidade de capinar um lote pro meu pai. Coisa pequena, que me causou dor nas costas, mas que tinha umas plantas já grandes, com mato alto.

Achei muito estranho quando eu via aquela planta muito forte, crescida, dando frutos e tinha que mata-la. Segundo minha irmã, que entende do tema, aquilo era só mato, atrapalhando as outras árvores frutíferas, ou seja, aquelas que realmente nos interessavam.

Mas a sensação de ir com a enxada podar até a raiz, com força, uma linda planta julgada daninha me fez pensar como há uma seleção do que deve morrer e como essa justificativa faz com que, então, eliminemos qq culpa e usemos toda a força pra executar a ação.

Parece bizarro comparar plantas com pessoas, mas capinar me fez pensar em homicídios.

As mesmas pessoas que vivem na área rural e que costumam matar para viver, provavelmente matavam - e ainda matam - a pessoas que são "daninhas" pro seu meio. São casos vários de justiça pelas próprias mãos que ainda na mentalidade de muitos é justificada por ameaçar o equilíbrio.

Com a sociedade moderna, estabeleceu-se que não mais se mata, uma vez que a forma de punição adotada é a prisão, na maioria das vezes. É mesmo um processo de mudança, de pacificação que deve ser internalizado, já que a vida é considerada bem maior que deve ser protegida pelo Estado.

Pois se é difícil internalizar esse novo comportamento, parece haver outros processos na modernidade que vão de encontro com esse processo de pacificação.

A produção em massa faz com que não somente plantas e animais sejam mortos em excesso para saciar nossa fome e nossa gula, mas também as pessoas são mortas futilmente, por exageros de nosso comportamento.

Desde que se passou a produzir em massa, também se destrói coisas (e pessoas) em massa. Além disso, se antes quem consumia é que matava, hoje quem mata nem sempre sabe o porquê do que faz. Simplesmente cumpre uma função banalizada pois deixou de ser refletida.

Matamos plantas, animais e pessoas não por necessidade, mas para saciar prazeres. Esta é a lei maior que parece fundamentar essa atitude. Fica fácil chegar a esse extremo quando a ação se torna irrefletida e rotineira.

Domingo, Janeiro 18, 2009

Antes e Depois

Existe um antes e um depois do dia 2 de janeiro.

O antes era o tempo em que ver jornal com meu pai era difícil porque ele falava o tempo todo, comentando cada notícia e, assim, não deixando que ouvíssemos a próxima.

Era o tempo em que mesmo sempre dizendo primeiro "não", papai repensaria e animaria de fazer algum passeio.

Era o tempo em que eu podia ser brava com ele, motivar-lhe a fazer alguma atividade física por meio da pressão militar.

Era o tempo em que ele talvez moraria numa casa, pra ter cachorro. Mas mesmo não morando, ele ia lá todo dia, ver os passarinhos.

Tempo em que os olhos e a fala estavam sempre prontos pra cantar uma mulher ou invocar tal situação, fazendo raiva na gente.

Tempo de cantarolar sambas e assobiar como os passarinhos.

Mas aí veio o dia 2 de janeiro, um AVC leve, e depois dele, o silêncio tem prevalecido.

Agora ele fala baixo.

Evita falar e não gosta de repetir o que disse porque é difícil.

Diz as palavras com cuidado, tentando acertar de primeira a pronúncia.

Descobriu que está mais velho do que sente e aí, passou a se sentir mais velho do que é.

Tem medo. E nós também.

Mas foi no dia 2 de janeiro. Logo depois de reveillón. O tempo é de esperança.

E é assim que vamos levar as coisas.

Com esperança de que ele ainda vai falar muito na hora do jornal

Esperança que ele vai assobiar pros passarinhos e ter a casa com cahorro.

Mais do que tudo: esperança de que ele vai ver a família cresce.

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